A minha pessoa sou eu (ponto)
4 de Janeiro…o ano é 1980…DIA ZERO.
Carlos Miguel Sampaio Ribeiro Ferreira de Abreu nasce e é declarado oficialmente o segundo dos filhos de Isabel&Lázaro. Tendo decidido à última hora privá-lo da vertiginosa viagem pelo cano da sanita, e sendo estes já os orgulhosos pais de Márcia, nada mais esperavam que um modelo aperfeiçoado, mais um belo protótipo da sua combinação genética e ideológica.
Porém, seria mais complicado que isso…
Aos 2 anos de idade Miguel já sobe para o parapeito da janela do primeiro andar do seu prédio para manifestar o seu gosto por animais, neste caso pelo cão do rés-do-chão.
Aos 3 pede ajuda e chama por uma “lambelauncia” depois de ter verificado borras no fundo da malga do vinho tinto.
Com 5 anos ingressa na 1ª classe. O motivo…A sua irmã queria VER filmes, e não lê-los em voz alta.
Por essa altura começa a formar-se a teoria de que será muito inteligente, porém a sua preguiça vai conseguindo adiar os resultados que fundamentem essa teoria.
Aos 12 anos apanha a sua primeira bebedeira e acha toda a gente bonita. Parte uma clavícula ao tentar saltar um penedo na sua bicicleta, aos 28 anos confessa aos seus pais que a fractura não terá resultado de um passeio pelas traseiras de sua casa.
Com 13 anos consegue persuadir os seus pais a comprar-lhe uma mota, demorou um ano a conseguir finalmente a sua primeira ida ao hospital a bordo de uma “lambelauncia”, do episódio resulta um dedo partido, uma queimadura de terceiro grau na perna direita, e anos consecutivos a ir de calças para a praia e a jogar ténis de meias esticadas, qual jogador de futebol.
Aos 15 anos sai de casa dos pais em Lordelo Guimarães e torna-se aluno da Escola Secundária Soares dos Reis…o menino que toda a gente conhecia até então, torna-se o menino que toda a gente conhece a partir daí. Decide categoricamente perseguir aquele sentimento orgásmico (Orgasmo: do Gr. orgasmós, movimento impetuoso dos humores) que toda a gente parece estar constantemente a sentir o da “traça” do tabaco.
Nirvana é a música que lhe corre nas veias. Aproveita a distância que afasta os olhos dos seus pais da sua indumentária para trajar aquelas calças dignas de um pedinte de sucesso, que mal se aguentam no corpo de tão rotas, usa camisolas e casacos com tanto borboto que parecem ter estagiado debaixo de uma cama durante uma semana, até porque não eram raras as vezes em que isso acontecia. O volume do seu comprido cabelo era controlado pela força do capacete, e apesar das inúmeras tentativas de suborno dos pais ele recusa-se a cortá-lo. Por esta altura continua a fumar, mas apenas porque pelos vistos lhe confere um certo estilo.
Com 17 anos inicia um namoro que duraria 6 anos, fuma um charro. Concorda que sim, foi um belíssimo charro.
Aos 18 anos tira a carta e põe fim a anos de condução clandestina, decide cortar o cabelo. Diz ao seu pai que cede finalmente ao suborno, ganha 30 euros com isso. É obrigado por um amigo a fazer a específica de geometria depois de 5 horas de introdução à materia em questão, safa-se com um 19, chamemos-lhe pisso.
Com 19 anos ingressa na Universidade Lusíada do Porto em arquitectura depois de lhe ter sido barrada pelos seus pais a candidatura aos cursos de pintura ou escultura, pelos vistos teria um primo que depois de ter seguido esse caminho acabou a abrir e fechar portas no hospital da terra. Experimenta a praxe, concorda que nenhum dos “doutores” chega aos calcanhares do Sr Lázaro na ciência dos altos berros, e decide não perder tempo com amadores.